Sobre a Soili Hortana

Soili Horttana nasceu em Jurva, na Finlândia — um país onde a luz do verão é breve e intensa e o inverno pinta o mundo de branco absoluto. Vem de uma linhagem marcada pela deslocação e pela persistência: a família, originária de territórios anexados pela antiga União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, trouxe consigo a memória da perda e o instinto de recomeçar.
Desde os sete anos o talento brotava como se viesse da alma. Conserva-se o pastel de uma criança a esquiar — o gorro colorido, o gesto livre sobre a neve — testemunho dessa pureza primeira. A avó reconheceu o dom e sonhou para a neta o caminho das artes. Aos catorze anos, o professor insistiu no mesmo chamado: as Belas-Artes. Em 1970 frequentou um curso de arte na Universidade de Seinäjoki. Cresceu ainda sob o olhar de um pai de mãos de ouro — artesão que talhava a madeira e construía violinos de rara beleza. Nesse quotidiano de ofício e música, Soili aprendeu que a arte não é só imagem: é harmonia, ritmo e alma. A ligação à natureza e o gosto pela música vêm dele.
Concluído o liceu, em 1972 partiu para Espanha. Em Madrid estudou a língua e a cultura espanholas e passou longas horas nos museus — sobretudo no Prado, que ela própria considera decisivo. Foi ali, diante dos mestres, que o interesse pela pintura se tornou vocação. Em 1976 aprofundou desenho e pastel num atelier madrileno. Quase onze anos de Espanha deixaram-lhe o olho treinado na cor, na composição e no silêncio das salas.
Fixou residência em Portugal em 1984, em Paço de Arcos. Foi então que encontrou o óleo — a matéria que daí em diante seria a sua. Em 1985–86 concluiu, com bolsa do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, o Curso Anual de Língua e Cultura Portuguesa para Estrangeiros na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mais tarde licenciou-se em História, com variante em História da Arte, na mesma Faculdade. Viajou o país e deixou-se impressionar pela cultura popular: data dessa época a paixão duradoura pelos bonecos de Barcelos. A cor e a luz de Portugal fascinarama-na e nunca mais a largaram.
Frequentou, por pouco tempo, as aulas pós-laborais da Sociedade Nacional de Belas Artes e o Arco. A natureza independente afastou-a depressa das fórmulas académicas. Preferiu o diálogo direto com a tela. Teve, porém, o privilégio de frequentar os ateliers de dois mestres portugueses — Marcelino Vespeira e Ângelo de Sousa —, amigos do marido, onde absorveu lições silenciosas de liberdade.
A obra, quase sempre a óleo, é um hino à cor pura e à alegria de ver. Soili não copia o mundo: transfigura-o. Parte do que a rodeia — interiores, objetos, o quotidiano, Lisboa e as memórias de África, em especial de Moçambique — e devolve-o mais vivo. O naïf encontra o fauvismo e o lirismo popular numa linguagem que é só dela: solar, eclética e inconfundível.
Em 2014, na Bookshop Bivar, em Lisboa, apresentou Os 7 Pecados Capitais. A crítica Maria Susana Mexia viu nessa série uma arte que educa sem traumatizar: figuras jovens, humor e leveza para falar de excesso, virtude e liberdade. «A vida simples mantém a alma limpa», diz a pintora. Longe de chocar, prefere sensibilizar — e impelir, com doçura, à superação.
O auto-retrato, de olhar verde penetrante e serenidade luminosa, revela a mesma intensidade que explode nas telas. Entre a neve da infância, as salas do Prado e a luz de Lisboa, Soili Horttana fez da vida o que a pintura lhe ensinou: cor, equilíbrio e uma alegria que não pede licença.
Artigos de Jornais e Revistas
Em dezembro de 2014, a professora de Filosofia Maria Susana Mexia entrou por acaso na Bookshop Bivar, nas Avenidas Novas, e deparou-se com uma exposição que não esperava: Os 7 Pecados Capitais, de Soili Horttana.
O que a deteve não foi o escândalo do tema — foi a leveza. Em vez de figuras adultas e grotescas, Soili pintou crianças e jovens. Em vez de condenar, quis educar: mostrar como a preguiça, a gula, a inveja, a luxúria, a ira, a avareza e o orgulho nos seduzem cedo, e como a virtude se aprende sem medo nem punição.
«A vida simples mantém a alma limpa», diz a pintora. A crítica reconheceu nessa série o que percorre toda a sua obra: cor, humor e uma fé discreta na possibilidade de nos tornarmos melhores.
O artigo que se segue, publicado no jornal A Ordem a 11 de dezembro de 2014, é o retrato dessa revelação — e um convite a olhar a pintura de Soili como forma de educação, não apenas de encanto.








